Quando vale a pena substituir a canalização toda?
Quando as fugas se repetem em sítios diferentes, a água sai castanha depois de horas parada, a pressão caiu sem explicação ou a rede é de ferro galvanizado ou de chumbo. Nesses casos, cada reparação resolve um ponto e deixa o resto da rede a envelhecer. A substituição troca a rede de água fria e quente por tubagem nova com coletores e, quando faz sentido, os esgotos interiores. Faz-se por fases, com a casa habitada.
- Sinais: fugas repetidas, água turva ou com ferrugem, pressão baixa, golpes e ruído nos tubos
- Substituir sempre: tubos de chumbo e de ferro galvanizado
- Rede nova: multicamada com coletores; esgotos em PP ou PVC (Uponor, Geberit, Wavin)
- Licença: em regra dispensada para obras interiores que não mexam na estrutura (RJUE, art. 6.º)
- Duração: 7 a 10 dias num apartamento, 2 a 3 semanas numa moradia T3
- Orçamento: gratuito, após visita técnica
Índice
Reparar ou substituir
Uma fuga isolada num tubo em bom estado repara-se e fica resolvida. O problema começa quando a fuga é um sintoma. Numa rede de ferro galvanizado, a corrosão avança por dentro de todos os tubos ao mesmo tempo: depois da primeira fuga vêm outras, em sítios diferentes, e cada uma pode estragar um teto, um soalho ou a casa do vizinho de baixo.
Estes são os sinais que nos levam a recomendar a substituição completa, e o que cada um costuma querer dizer:
| Sinal | O que costuma estar a acontecer |
|---|---|
| Água castanha ou amarelada depois de horas sem uso | Corrosão por dentro dos tubos de ferro galvanizado |
| Pressão baixa em vários pontos da casa | Calcário e ferrugem a estreitar o interior dos tubos |
| Fugas em sítios diferentes no espaço de poucos anos | A rede chegou ao fim de vida; não é um defeito pontual |
| Golpes ou assobios ao fechar as torneiras | Tubos mal fixados, diâmetros desajustados ou pressão excessiva |
| A água quente demora muito a chegar | Rede em série, comprida e sem isolamento |
| Manchas de humidade em paredes ou tetos | Fuga escondida, muitas vezes numa junta antiga |
Se reconhece dois ou mais, cada reparação nova é paga por um problema que continua lá.
O que costuma estar dentro das paredes
Nas casas construídas até aos anos 90 encontramos quase sempre um destes materiais. Muitas vezes encontramos vários, fruto de reparações feitas ao longo dos anos.
| Material | Onde aparece | O que acontece com o tempo | O que recomendamos |
|---|---|---|---|
| Ferro galvanizado | Moradias e prédios até aos anos 90 | Enferruja por dentro e acumula calcário; a passagem de água vai diminuindo | Substituir |
| Chumbo | Edifícios antigos e centros históricos | Pode libertar chumbo para a água, sobretudo quando fica parada nos tubos | Substituir sempre |
| PVC colado na água quente | Algumas obras dos anos 80 e 90 | O calor envelhece o tubo e as colagens; as fugas aparecem nas juntas | Substituir |
| Cobre | Instalações de melhor qualidade | Dura décadas; os pontos fracos são as soldaduras e a água agressiva | Avaliar caso a caso |
O caso do chumbo
A Diretiva europeia 2020/2184, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 69/2023, fixa um limite de 10 microgramas de chumbo por litro de água na torneira e obriga a baixá-lo para 5 microgramas até 12 de janeiro de 2036. Com tubos de chumbo dentro de casa, é difícil garantir esse limite, sobretudo na primeira água da manhã, que passou a noite parada nos tubos.
Para reconhecer um tubo de chumbo: é cinzento-baço e macio, e se o raspar com uma chave fica brilhante, cor de prata. Um íman não agarra (no ferro galvanizado, agarra). As juntas costumam ter um aspeto arredondado, em bolbo. Encontramo-lo sobretudo em casas antigas de centros históricos, como o de Tavira.
Calcário e água de furo
A água do Algarve é dura. O calcário agarra-se às paredes dos tubos antigos e, somado à ferrugem, aperta a passagem até a pressão cair. Nas casas abastecidas por furo, a água pode trazer areias ou ser mais agressiva para os metais. Na visita perguntamos sempre de onde vem a água, porque isso pesa na escolha do material e na proteção à entrada da rede, como um filtro ou uma válvula redutora de pressão.
Com que material se faz a rede nova
Quase todas as redes de água se fazem hoje com um destes quatro materiais. Todos são bons quando bem instalados. A diferença está em como se adaptam a uma casa que já existe e onde se vai viver durante a obra.
| Material | Como se une | Pontos fortes | Limitações |
|---|---|---|---|
| Multicamada (PEX-AL-PEX) | Acessórios prensados | Dobra-se e mantém a forma; dilata pouco; passa pelos caminhos dos tubos antigos | Pede acessórios de qualidade e ferramenta própria |
| PEX | Acessórios prensados ou de compressão | Muito flexível; bom para passagens difíceis | Não mantém a forma; precisa de mais fixações |
| PPR | Soldadura por termofusão | Resistente e muito usado em obra nova | Rígido; dilata bastante com água quente; as soldaduras pedem espaço para trabalhar |
| Cobre | Soldadura ou acessórios prensados | Aguenta temperaturas altas; dura décadas | Mais mão de obra; sensível a água agressiva |
Numa casa habitada, a nossa escolha por defeito é o multicamada com coletores, de marcas como a Uponor. Usamos PEX nas passagens difíceis e cobre onde a temperatura o exige, como nos circuitos dos painéis solares. Nos esgotos interiores usamos PP ou PVC de marca (Geberit, Wavin).
Coletores em vez de rede em série
Nas casas antigas, a água corre em série: o mesmo tubo vai passando de torneira em torneira. Na rede nova, cada ponto de água tem o seu tubo, que sai de um coletor. Uma fuga passa a afetar um único ponto, que se fecha no coletor sem cortar a água à casa toda. E a pressão do duche deixa de cair quando alguém liga a máquina da roupa.
Não sabe que tubos tem em casa?
Na visita técnica identificamos os materiais da rede, vemos por onde passam e dizemos-lhe se compensa trocar tudo ou só uma parte. A visita e o orçamento são gratuitos.
Decisões a tomar antes da obra
Com as paredes abertas, acrescentar ou mudar um ponto de água é simples. Depois de azulejar, já não é. Estas são as perguntas que vale a pena responder antes de começar:
- Onde fica o coletor? Tem de ficar acessível, num armário ou atrás de uma portinhola, perto das casas de banho e da cozinha.
- Precisa de pontos de água novos? Ilha de cozinha, máquina de lavar loiça, segunda casa de banho, torneira no terraço.
- Vai mudar a forma de aquecer a água? Se pensa trocar o esquentador por uma bomba de calor ou instalar solar térmico, deixamos a tubagem preparada para o novo local do depósito.
- Os banhos ficam longe da água quente? Em moradias grandes, uma recirculação de água quente poupa minutos de água fria em cada banho.
- Quer pré-instalações? O esgoto dos condensados do ar condicionado ou a aspiração central ficam muito mais fáceis com as paredes abertas.
- E os esgotos? Se os tubos de esgoto são antigos (ferro fundido, fibrocimento ou PVC fino), é a altura certa para os trocar. Os tubos de fibrocimento podem conter amianto, e a sua remoção tem regras próprias e é feita por uma empresa habilitada.
Apartamento ou moradia: até onde vai a sua rede
Num prédio, a rede da sua casa começa no contador. As colunas que sobem pelo edifício e os tubos de queda dos esgotos são partes comuns, do condomínio. Podemos trocar tudo dentro da fração, mas qualquer intervenção nas colunas, ou um corte de água geral, tem de ser combinado com a administração. Também vale a pena avisar o vizinho de baixo antes de se abrirem roços no chão.
Numa moradia, a rede interior vai do contador até cada ponto de água. A ligação à rede pública é da entidade gestora da água do município.
É preciso licença?
Na maioria dos casos, não. O artigo 6.º do Regime Jurídico da Urbanização e Edificação isenta de licença as obras de conservação e as alterações no interior dos edifícios que não mexam na estrutura, nas fachadas nem na cobertura. Trocar a canalização pelos mesmos caminhos cabe aqui. Em edifícios classificados ou em zonas de proteção de centros históricos, confirme primeiro com a câmara municipal.
Como corre a obra com a casa habitada
A substituição da canalização é das obras mais invasivas que fazemos, a par do chão radiante. Com método, a casa continua a funcionar:
- Visita técnica. Identificamos os materiais, os caminhos dos tubos e o que substituir.
- Orçamento detalhado por divisão, com o esquema da rede nova.
- Obra por fases. Montamos a rede nova enquanto a antiga continua a abastecer a casa.
- Um corte de água planeado consigo, para as ligações finais. Há sempre uma casa de banho a funcionar antes e depois.
- Ensaio de pressão a 10 bar durante 24 horas, antes de fechar as paredes.
- Fotografias de todos os traçados antes de fechar. Vai querer tê-las no dia em que pendurar um armário ou furar uma parede.
- Fecho dos roços, pronto para o pedreiro ou o ladrilhador fazerem os acabamentos.
Aproveitamos os caminhos da tubagem antiga sempre que possível, para abrir o mínimo de roços, e isolamos a zona de obra para controlar o pó. Numa moradia T3 a obra dura, em geral, 2 a 3 semanas. Num apartamento, 7 a 10 dias.
O que não fazemos
Para ninguém perder tempo: não fazemos reparações pontuais nem desentupimentos. Se tem uma fuga isolada numa rede em bom estado, um canalizador de assistência resolve mais depressa. Também não fazemos azulejos, pintura nem alvenaria de acabamento; deixamos os roços fechados para quem vai fazer essa parte.
Entramos quando a decisão é trocar a rede inteira, ou pelo menos um piso ou uma zona completa da casa. É aí que a obra feita de uma vez sai melhor do que dez reparações.